Governador da Bahia comentou sobre investimentos da montadora BYD e criticou a proposta de criação da ‘Frente Sul-Sudeste’, do governador de Minas Gerais, Romeu Zema: ‘Não podemos alimentar disputas’. Jerônimo Rodrigues PT Bahia
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Em evento na noite desta quinta-feira (17), em São Paulo, a montadora chinesa Build Your Dreams (BYD) anunciou mais um investimento na Bahia: um centro de desenvolvimento de tecnologia e pesquisa em Salvador, para trabalhar em um veículo híbrido flex, a ser produzido no Brasil.
Não foram divulgadas datas para a abertura do centro tecnológico, nem os valores de investimento. A notícia, dada por Tyler Li, presidente da BYD no Brasil, pegou a todos de surpresa, inclusive o governador da Bahia, Jerônimo Rodrigues (PT).
Colocamos à mesa da BYD alguns desejos nossos. E um deles foi que a empresa chegasse no nosso país, no nosso estado, e também investisse em um centro de tecnologia, de pesquisa e de desenvolvimento.
“Eu esperava que isso fosse acontecer, mas talvez que fosse dada a informação mais para a frente. Talvez em outubro. Chegou agora, uma boa surpresa”, afirmou o governador em entrevista ao g1.
Outubro é importante, pois espera-se que todo o trâmite de transferência das instalações do Complexo Industrial de Camaçari esteja completo, com a BYD substituindo a Ford na produção de automóveis no estado. A empresa americana fechou sua operação no Brasil em janeiro de 2021.
O governo precisa compensar a Ford por melhorias realizadas no terreno, com desembolso estimado entre R$ 100 milhões e R$ 150 milhões. O número ainda não está fechado.
Daí por diante, a BYD poderá assumir e colocar a cabo os R$ 3 bilhões de investimentos previstos para a produção de veículos elétricos e híbridos no país.
O governador Jerônimo Rodrigues comentou também seus receios com a reforma tributária. A Ford se instalou na Bahia depois de receber incentivos tributários do estado, e a possibilidade se extingue com o novo modelo de tributos encampado pelo governo federal.
Minha preocupação de curto prazo é que a gente possa fazer uma reforma tributária que atenda aos estados do Nordeste, e garanta nossa capacidade de estimular a atração de investimentos.
Rodrigues ainda lembrou algumas das disputas que estão em jogo entre os próprios prefeitos e governadores durante a tramitação da reforma tributária, e fez uma crítica à proposta de formação de uma aliança Sul-Sudeste em resposta à articulação dos governadores dos nove estados nordestinos, idealizada pelo governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo).
“A postura, por exemplo, do governador de Minas Gerais, ela não nos ajuda a pensar no país unificado, como Lula está pregando. Não podemos, nesse momento, alimentar qualquer disputa entre região ou entre estados. Não é bom para ninguém”, afirmou.
Veja abaixo os principais trechos.
g1 – O que falta para a BYD começar o trabalho de construção das novas fábricas em Camaçari? Quando começa?
Deve ser em outubro. É o prazo que eles nos deram, que precisariam para se adaptar internacionalmente e garantir os recursos. Em outubro virá a direção máxima da empresa para poder fazer os anúncios.
Da nossa parte, fizemos a nosso papel de dialogar com o ambiente onde vai ser instalada a fábrica com a Ford. Assumiremos a responsabilidade, inclusive, de fazer entrega do imóvel, com combinação de infraestrutura e do porto da região.
g1 – O que ainda está pendente? Ainda tem algum entrave com a Ford?
É só o prazo de investimento. A situação com a Ford já está bem combinada. São detalhes, apenas.
Em outubro, com a presença dos diretores globais da BYD, nós vamos colocar à mesa a nossa expectativa de que a produção seja antecipada. Em vez de o primeiro carro ser produzido no segundo semestre de 2024, vamos demandar que possa antecipar algum período.
Sabemos que a empresa tem sua política de investimentos. Nós vamos respeitar, mas sem deixar de fazer nossa parte de botar na mesa essa expectativa.
g1 – O anúncio de que a BYD vai instalar um centro de pesquisa e desenvolvimento em Salvador pegou a todos de surpresa, inclusive ao governo. Como avalia a iniciativa?
Nós já tínhamos conversado com a BYD anteriormente. Da mesma forma que a BYD colocou os desejos de incentivos, de estímulos, de infraestrutura para o governo federal e o governo do estado — a empresa fez uma lista de pedidos para que o estado e a União pudessem cumprir —, nós trabalhamos para que isso acontecesse.
Nós também colocamos à mesa da BYD alguns desejos nossos. E um deles foi que a BYD chegasse no nosso país, no nosso estado, e também investisse em um centro de tecnologia, de pesquisa e de desenvolvimento.
Então, eu esperava que isso acontecesse, mas talvez que fosse dada a informação mais para a frente. Talvez em outubro. Chegou agora, uma boa surpresa. A chegada dos investimentos da BYD requer que deixemos também investimentos longevos.
A Ford fez isso. A Ford saiu da Bahia na parte da indústria, mas a parte de inteligência continua lá. E é importante para o estado, ter a referência de que na Bahia tem inteligência da Ford.
Ainda acreditamos que a BYD pode ajudar, por exemplo, no incentivo à pesquisa mineral, já que eles têm desejo de baixar custos e ter uma base de matéria-prima próxima. Mas já temos essa iniciativa inicial de fazer uma adaptação de automóvel híbrido para flex e também um de diesel para biodiesel, que é um combustível renovável.
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g1 – Sobre a reforma tributária, os estados perdem a margem de incentivos tributários, que foi o que atraiu a Ford lá atrás. A reforma é positiva, visto que vocês têm um polo industrial para manter?
Temos discutido, inclusive dentro do Fórum de Governadores do Nordeste, e mais recentemente até com o presidente Lula, Haddad e a equipe, que temos que ter noção de que o estado e os municípios, inclusive os empresários, poderão perder aqui ou ali.
Mas, no conjunto, a intenção é que a reforma possa fazer o país ganhar. As compensações posteriormente acontecerão. Eu tenho clareza disso.
É claro que, na condição de governador, cada um vai fazer a defesa de seus estados. Mas, se a gente ficar com esse olhar, vamos dificultar o desenvolvimento de uma reforma que acolha o olhar do país como um todo.
Então, é um aspecto com dois sentimentos: um do que o país precisa, mas sabendo onde estamos pisando. Quem é prefeito, vai olhar o município. Quem é empresário, vai olhar para os benefícios que perderão. Mas, dentro de tudo, interpreto que é um bom avanço.
Possivelmente, a sociedade brasileira não domina o que significa uma reforma tributária. Se a gente traduzir, dizendo que a cesta básica pode ser influenciada, o Imposto de Renda… As pessoas começam a entender.
Então, é claro que desde o contribuinte, os empresários e até mesmo os governos, temos que ter essa cultura de que nós precisamos avançar e amadurecer. Estamos hoje dentro do Congresso, dialogando já com os senadores para saber como podemos compensar as perdas.
g1 – Como isso seria feito? Por meio dos fundos de participação, como na proposta atual? Qual a estratégia para trazer investimentos?
O ideal seria ter ganhos diretos, que não precisassem utilizar os fundos. Os fundos são compensatórios, e a gente viu que, durante um governo federal que não cuidou disso, os fundos foram esvaziados. Sem poder utilizar os fundos, os estados padecem.
Se tivéssemos nossos ganhos no dia a dia dos impostos, nós não precisaríamos recorrer a isso. Agora, a compensação precisa ter.
A postura, por exemplo, do governador de Minas Gerais [Romeu Zema], ela não nos ajuda a pensar no país unificado, como Lula está pregando. Não podemos, nesse momento, alimentar qualquer disputa entre região ou entre estados. Não é bom para ninguém.
A declaração foi equivocada, foi um deslize, mas é um pensamento dele. Eu entendo que nós precisamos olhar a floresta [os estados brasileiros como um todo]. E olhando a floresta, eu acredito que a gente vá agora fazer as correções devidas.
Me parece que, na passagem do documento [texto da reforma tributária] pelo Congresso, não foi dada a devida importância no país como todo. Muitos segmentos prestaram atenção só a partir do que aconteceu no Congresso. Vamos tentar corrigir agora.
Ainda bem que o modelo bicameral nos dá essa oportunidade de buscar aperfeiçoamento naquilo que for possível. Mas claro que as disputas acontecem.
Não é o setor industrial que vai determinar o que tem que ser feito. Tem que ver o que as regiões ganham, o que uma vai ganhar mais que a outra aqui ou ali. E nós vamos trabalhar para isso, para que a gente possa recuperar pelo menos esse aspecto.
g1 – As entidades industriais falam que uma alternativa de atração pode ser o investimento em infraestrutura, logística, capacitação profissional. Acha que essa é uma saída?
Sim, mas é uma saída longa [de longo prazo]. Quando eu vou mexer em uma cadeia de formação de profissionais adequada a esse tipo de indústria [automotiva, no caso da BYD], o resultado é para médio ou longo prazo.
Então, temos que fazer as duas coisas: o que tiver de consertar agora para poder já ver a dinâmica na economia acontecer, e trabalhar a longo prazo.
Não temos ainda, no país, uma estrutura de universidade, de centros estudantis, que possa gerar um ambiente bom em curto tempo.
Nosso pedido em relação à reforma tributária é que os estados que têm um déficit de investimento de infraestrutura, de logística, possam ser observados pela União. Precisa olhar para os estados que têm um potencial forte de crescimento, como é São Paulo, mas também olhar para a pobreza que existe, para a dificuldade de infraestrutura e logística.
Minha preocupação de curto prazo é que a gente possa fazer uma reforma tributária que atenda aos estados do Nordeste, e garanta nossa capacidade de estimular a atração de investimentos.
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