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jan 17

Como mulher ajudou a salvar seu vilarejo da fome em Madagascar

  • 17 de janeiro de 2022

Seca prolongada no extremo sul do país deixou 1,3 milhão de pessoas lutando para encontrar alimento e 28 mil passando fome. Algumas pessoas consideram que esta é a primeira fome do mundo causada pelas mudanças climáticas, embora haja controvérsias a respeito. Loharano e seu marido Mandilimana transformaram sua forma de cultivo
Sira Thierij/BBC
A simpatia natural de Loharano esconde seu difícil trabalho para combater a tragédia que está abalando parte da região onde ela vive em Madagascar.
A seca prolongada no extremo sul do país deixou 1,3 milhão de pessoas lutando para encontrar alimento e 28 mil passando fome. Algumas pessoas consideram que esta é a primeira fome do mundo causada pelas mudanças climáticas, embora haja controvérsias a respeito.
Mas a aldeia de Loharano, Tsimanananda, onde ela é líder comunitária, foi poupada do pior.
A aldeia fica a 45 minutos de carro de Ambovombe, a capital da região de Androy, uma das mais prejudicadas pela drástica redução das chuvas nos últimos anos.
O caminho é difícil. Até um veículo 4×4 tem dificuldades para encontrar aderência nas estradas de terra.
A vista pelo para-brisas empoeirado revela um cenário de dunas que parece um deserto, sem árvores e exposto aos fortes ventos. É difícil imaginar alguma coisa crescendo ali, mas Tsimanananda destaca-se na paisagem.
O sorriso de Loharano ilumina o espaço em volta dela. Ela é pequena e gentil – não é a primeira pessoa que você identificaria como líder da comunidade. Mas ela rapidamente me convida para entrar em sua casa e faz com que eu me sinta à vontade.
“Sofremos muito com a fome. Nós plantamos, mas nunca conseguimos colher”, afirma ela, que tem 43 anos de idade, analisando uma seca anterior que começou em 2013. Mas, com o auxílio de uma entidade local, o Centro Agroecológico do Sul (CTAS, na sigla em francês), desta vez as coisas são muito diferentes.
Pouco depois da minha chegada, Loharano dava uma aula curta na sombra de uma árvore. Armada com um pôster ilustrando técnicas agrícolas, ela fala para os seus vizinhos e seu marido Mandilimana sobre produtos agrícolas resistentes à seca e métodos de revitalização do solo.
‘Temos café da manhã, almoço e jantar’
Ao longo dos últimos sete anos, o CTAS ajudou a introduzir grãos como milheto e sorgo, além de variedades de legumes locais, que crescem bem nas condições arenosas e aumentam a fertilidade do solo. Os habitantes da aldeia também aprenderam a plantar quebra-ventos naturais para ajudar a proteger a produção contra estragos.
“Agora, temos café da manhã, almoço e jantar”, afirma orgulhosamente Loharano, enquanto exibe seu canteiro de terra, onde ela e Mandilimana cultivam uma variedade impressionante de produtos.
Em um dos cantos, havia fileiras de milheto, depois feijão, ervilha e batata doce. “Nós comemos a casca do milheto moído com açúcar e essa é a comida preferida das crianças. Suas barrigas estão sempre cheias de milheto”, conta ela.
O CTAS reproduziu esse trabalho em outras 14 aldeias no sul de Madagascar, ajudando cerca de 10 mil residências, segundo a instituição. Mas a organização é pequena e não pode atender a todos. Claramente, as necessidades são enormes.
De volta à capital regional, Ambovombe, a visão relembra uma zona de guerra. Em um pequeno campo empoeirado, dezenas de famílias ergueram tendas improvisadas – uma mistura de mosquiteiros, sacos de arroz e folhas de plástico.
Mas essas cerca de 400 pessoas fugiram da fome, não de conflitos. Ao contrário de Loharano, elas não conseguiram cultivar alimentos e precisaram vender suas fazendas e animais para poder sobreviver.
Controvérsias sobre as mudanças climáticas
Mas não foram só as propriedades que as pessoas perderam.
Mahosoa, que vive ali com uma de suas esposas e 12 filhos, conta que quatro dos seus filhos mais jovens morreram no início da seca, três anos atrás. “Eles morreram de fome na aldeia”, conta ele. “Eles morreram um a um, dia após dia. Nós não comemos por uma semana. [Não havia] nada para comer, nada para beber.”
Mahosoa conta que alguns dos seus filhos saem para mendigar na cidade, para que eles possam comprar alimentos ou água. Segundo ele, as promessas de ajuda do governo não se materializaram para eles.
O governo distribuiu auxílio alimentar na área afetada e anunciou dezenas de projetos de infraestrutura de longo prazo que poderão transformar as perspectivas da região. Mas o presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, vem sendo criticado por não reagir à crise com a rapidez necessária, quando o impacto dos sucessivos anos de seca tornou-se mais evidente.
Alguns habitantes creditam a situação à marginalização histórica da região.
“Durante a guerra contra o exército colonialista francês, os Antandroy [habitantes da região de Androy] conseguiram lutar contra os colonizadores franceses, usando táticas de guerrilha”, segundo o professor universitário Tsimihole Tovondrafale. Por isso, ele afirma que os franceses não se interessaram em desenvolver a região.
“Eles não pensaram em construir estradas ou perfurar poços, por exemplo, e essa política persiste em Madagascar, desde a independência até agora”, afirma o professor.
Muitos analistas políticos culpam a reação do governo, que eles consideram lenta, pelo agravamento da crise da fome no sul da ilha, mas a ministra do Meio Ambiente de Madagascar observa a situação de forma muito diferente.
Baomiavotse Vahinala Raharinirina afirma que a fome tem “origem climática”. Esta afirmação segue a avaliação do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, que afirma que a crise está sendo causada pelas mudanças climáticas.
Mas o recente e influente relatório da organização World Weather Attribution sobre a seca em Madagascar, que incluiu os trabalhos do cientista climático Rondro Barimalala, contestou essa afirmação. Os pesquisadores concluíram que, embora as últimas chuvas tenham sido reduzidas e a probabilidade de secas futuras possa estar aumentando, as mudanças do regime de chuvas não podem ser atribuídas a impactos humanos sobre o clima.
Independentemente da causa precisa da falta de chuvas, não há dúvidas de que centenas de milhares de pessoas sofrerão esses impactos nos próximos anos.
Com seu trabalho para melhorar as condições da sua aldeia, Loharano está feliz porque a sua comunidade conseguiu evitar o desastre que muitos agora estão enfrentando. Mas ela se ressente ao ver que muitos outros não puderam receber ajuda.
“Fico triste por eles, pois eles poderão morrer de fome”, afirma ela. “Um dia, uma pessoa não tinha nada e perguntei a ela por quê. Ela respondeu que não comia desde o dia anterior. Então eu disse a ela que pegasse um pouco das minhas ervilhas e desse de comer aos seus filhos.”
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